Se ela dança, eu danço. Ana Luiza começa o assunto sobre simplicidade voluntária e me pergunta, no eme esse ene, se eu vi a matéria no fantástico. Vi, claro que vi. Fiquei com um pouco de pena daquelas pessoas aparentemente muito calmas e felizes, dizendo que estão aprendendo a viver com menos. Menos expectativas, menos agitação, menos dinheiro, menos sapatos. Menos sonhos, uma delas disse. E foi exatamente nessa parte do discurso que eu parei de olhar para a matéria com alguma curiosidade e comecei a prestar atenção com uma certa pena. Pena de gente que decide parar de sonhar. Se eu paro, é simples a equação, eu morro. Menos sapatos e bolsas me fariam sofrer horrores. Menos agitação seria bom, mas eu teria medo de emburrecer. Porque eu acho que a agitação é que treina o cérebro, de verdade. Faz com que o raciocínio seja rápido, que a gente reaja aos estímulos de forma mais adequada. Porque, fato, os estímulos são muitos.
Eu jamais poderia ser budista, por exemplo. Jamais. Eu sempre faço listas imaginárias de quais as coisas que eu deveria pegar e levar comigo em caso de incêndio no prédio. E ia dar muita coisa mesmo. Meu computador, por exemplo. Adoro. Meus cds, dvds, alguns livros. Meu casaco desconstruído de moleton, que é lindo, lindo, e que custou muitos dinheiros. Minha bolsa de cabrinhas e o vestido amarelo que me custou mais dinheiros ainda. Várias coisas. Uma vez, na faculdade, tentando achar a carteira para pagar o cookie que eu tinha comprado, achei o meu controle remoto da directv dentro da bolsa. Não sabia como ele tinha ido parar lá, na bolsa, em plena faculdade, mas fiquei um pouco feliz por ele estar ali, naquele momento, comigo. E eu sei que isso não faz o menor sentido.
Eu não consigo me desfazer de várias coisas, ela tem razão. Guardo roupas que eu amo e que ainda me vejo usando. Pra mim, às vezes, menos não é mais. Menos é menos mesmo. Ana Luiza está com meu livro "About a Boy" há quase um ano. É um dos meus livros mais queridos, que eu já teria relido se estivesse comigo. E que emprestei de coração (porque eu tenho defeitos, mas tenho coração bão), para que ela lesse e achasse a história foda e fofa, como eu achei. E que, eu sei, ela leu uma ou duas páginas e abandonou, na promessa de voltar. E ela não voltou. E ela não me devolveu. E o livro se mantém refém de uma pessoa desnaturada, que não liga a mínima para o buraco que se instalou no meu coração desde que eu deduzi que ela não estava lendo meu querido livro e que tampouco pretendia me devolver.
Então, esse negócio de viver a vida mais simples pode ser muito bonito, e tal, mas não me serve. Não sei viver com menos. Não consigo podar as minhas expectativas, não troco meu carro por ônibus, não consigo. Não quero pouco, quero muito, sempre. Muito das minhas coisas, muito dos meus amigos, muito do trabalho, das pessoas, de tudo. Tudo meu. Se eu tiver que podar meus sonhos, então, não gosto nem de pensar. Porque, nesse caso, eu, sem sapatos e bolsas, sem agitação, sem preocupações, sem expectativas ou sonhos, ia sentar e morrer. A equação é simples.
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Então era Carnaval. E o mundo corporativo liberou a garota para passar alguns dias no Rio de Janeiro. Achei bom, mas quando vi que ela estava combinando eventos outdoor, ao ar-livre e embaixo do sol escaldante, pensei, já era. Eu queria cinema, coisas civilizadas. Restaurantes, casas de amigos, um filme ou outro no DVD.
Então a garota quis ir à praia e eu mandei a minha irmã ir me representar, enquanto ficava em casa, em ambiente refrigerado, tomando coca-cola gelada e fazendo downloads. Eis que, no meio da tarde, surgem as duas, de biquíni, dizendo que a gente ia para a Lapa. Eu não sei por que eu disse que ia, mas fato, eu disse. E isso foi realmente impressionante. A condição era que não me levassem para sambinhas, porque ia ser muito caótico e eu era alguém civilizada. Eu era.
Na Lapa, imaginem. Eu fui à lapa em festinhas ploc no circo voador, em feirinhas ploc, ao show do Franz Ferdinand. Não sou ploc, sou simpatizante, é importante mencionar. Acho a lapa uma graça, tão bonitinha. Tão “in”. Não sei como fui parar lá. Estava com dor de estômago, mas entrei no clima, coloquei anteninhas e me meti no meio da multidão. Adoro anteninhas. Então, como estava tudo muito absurdamente cheio, as pessoas ficavam zanzando de um lado para o outro, e eu seguia o fluxo. Peixe fora d’água. Peixe fora d’água, usando anteninhas. Eis que eu percebo que as pessoas estão me levando para um samba. Não houve tempo para reação. Era o caos, a barbárie. Desconhecidos suados, bêbados e esbaforidos esbarravam no meu vestidinho, pisavam nas minhas sapatilhas tão cuidadosamente escolhidas. Poças de resto de chuva, xixi (o horror, o horror), cerveja derramada. Pessoas se acotovelavam, me acotovelavam. E eu ali, preocupada em não estragar (mais) os meus sapatinhos de amarrar na canela, escolhidos para a visita à lapa.
A garota gritava, louca, alguma melodia que eu não conhecia, mas que devia ser um samba. Dedos em riste, um chapéu de oncinha tomado de um transeunte. Praticava amizade com qualquer um que tentasse vender cerveja, mandava dançar. Dançava, gritava. Dançava no meio de rodinhas desconhecidas. E cantava. E gritava.
“não pense que meu coração é de papel,
não brinque com o meu interior,
camarão que dorme a onda leva
hoje é dia da caça, amanhã do caçador”.
Minha irmã, percebendo o meu desespero, me comprou uma coroa. De princesa. Brilhava com luzinhas que piscavam. Adoro coroas. Daí, me entreguei. Comecei a sambar, o que causou alguma comoção no grupo. Desisti de ser do contra, pulei carnaval, falei com desconhecidos, acotovelei pessoas. Danem-se as sapatilhas.
Então, era Carnaval. E, pasmem, eu me diverti.
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Declaro aberta a seção “Se ela dança, eu danço”. Também me confesso.
Confesso que já comi hóstia, só pra saber como era, sem ter feito primeira comunhão e sem ligar a mínima para o que aquele sacrilégio representava.
Confesso que rezei e acreditei em Deus boa parte da minha vida. Confesso que não acredito mais.
Confesso que não tenho passaporte, e que nunca saí do país. Shame on me.
Confesso que reclamo a maior parte do tempo, e que meu copo está sempre meio vazio.
Confesso que odeio gente meiga, odeio gente burra e gente boazinha. Confesso que sou maldosa, e às vezes meio sádica. Confesso que sou extremamente rancorosa e meio moralista.
Confesso que pequenas coisas salvam o meu dia, como comprar um cubo mágico ou um rodinho de pia. Descobrir um seriado novo, receber um telefonema daqueles que duram horas ou dormir no sofá, entediada.
Confesso que também gosto da Wanessa Camargo, enquanto pessoa, mas acho a musica dela um lixo. Confesso que sei cantar aquela música da Perla, do “não atende o celular”. Confesso que amo Big Brother, e que torcia para o Alemão, mas não torço mais. Agora é Fani. Uhunoviguaçu.
Confesso que penso em inglês, às vezes. Confesso que travo brigas imaginárias com pessoas com quem não consigo brigar pessoalmente. Confesso que algumas músicas da Britney e dos Backstreet Boys são brilho puro. Confesso que sabia a letra de várias músicas do Só Pra Contrariar e que já fui a um show da Ivete Sangalo, quando ainda não tinha personalidade, e que me diverti horrores.
Confesso que me acho meio parecida com a Deborah Evelyn, mas não acho isso nem um pouco bom. Confesso que já roubei borracha nas Lojas Americanas, mas tive remorso depois.
Confesso que me apego cada vez mais a objetos. E cada vez menos a pessoas. Confesso que me acho meio sem-graça, mas que o blush e o rímel têm operado maravilhas na minha vida.
Confesso que choro sozinha, escondido. E rio também. Confesso que falo sozinha e me acho muito engraçada.
Confesso que acho que nunca vou conseguir aprender francês. Confesso que tenho medo de ser abduzida.
Confesso que imitei o tema da Ana Luiza.
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