Eu não resisto. Não resisto. Um ano depois, novo VMA, nova história.

Não, eu não vi o VMA. Ano passado eu não vi porque me distraí com um show da Madonna. Ano passado eu super queria ver mais que tudo no mundo. Porque tinha a Britney e seu big comeback. E, enquanto Madame Ç estava distraidérrima, hipnotizada pelo balé feito com as mãos da Madonna e dois dançarinos em Forbidden Love, Britney se arrasava em público, shamelessly. E eu fiz todo um post analisando a situação, torcendo de coração puro e bão, à la Irislene Stefanelli, que nossa querida bitch conseguisse se reerguer.

Pois bem. Analisemos a situação, once again. Nesse meio tempo, recapitulando, Britney se arrasou mais um pouquinho, mas aí um juiz ishperto, de coração bão, assim como o meu, querendo o melhor pra ela e pras crianças, tirou dela todo e qualquer direito sobre os filhos, sem prazo definido. Fez mais, o senhor juiz. Tirou dela todo e qualquer direito sobre ela mesma. Papai Spears tomou as rédeas, os cartões e senhas bancárias, refez a agenda, botou Brit Brit pra praticar amizade com Mel Gibson, alcoólatra mas cristão. Botou Brit Brit pra malhar, suar aquele excesso que a televisão evidenciou. Beba mais água, e Britney foi vista não com bebidinhas, mas com garrafinhas de água. Nem dirigir ela podia mais. Papai levava e buscava. Britney descansava, malhava, era fotografada na praia com Mel Gibson e outros amigos, vez por outra. A vida começa a se ajeitar, e Madame Ç, ainda encabulada, respira fundo e torce para que seja mesmo verdade. Em silêncio. Porque neguinho em volta adora gritar que odeia Britney, que é tudo porcaria, lixo. Tsc, tsc.

Nisso, a Seventeen anuncia. Jamie Lynn, 16 anos, irmã da Britney, aquela que continuava sob custódia da mãe e que deveria herdar as crianças segundo o testamento de nossa heroína, engravida. Eu, Jamie Lynn, drogada e prostituída, estrela do clube do mickey, ou algo que o valha. Ligeiramente grávida. Estabelece-se a comparação. Não é a Britney, vejam bem, a culpada. É a mãe. Aquela vaca. Alguém tem que ser responsabilizado quando duas garotas se perdem na vida.

Enquanto a imprensa se distrai com Jamie Lynn, Amy Winehouse e outros vexames, Britney vai se reerguendo. Com escorregões, é verdade, tipo o Sean Preston fingindo fumar imitando a mãe com um cigarro surrupiado dela. Devidamente fotografado. Mas Britney está visivelmente mais magra, mais sorridente, mais saudável. Eu tento dar a minha força gravando um cd de mp3 com todos os sucessos, e ando pelas ruas meio gritando Piece of Me. Adoro. Letra ótema, como não? O cabelo continua um horror. As roupas idem. Mas, pelo menos, a calcinha passa a fazer parte do elenco fixo no outfit.

E, ontem, Britney ressurge. Por motivos outros, não vi o VMA. Eu nem costumo ver mesmo. Parar, eu paro pra ver Oscar e SAG awards, quando muito. Ou Emmy. Pra discutir roupas, tecer comentários, com as outras madames, ou com qualquer um que se disponha a me ouvir. Pra ver o Johnny Depp, que eu não sou de ferro. O elenco de Gossip Girl, essas coisas. VMA eu paro pra ver quando tem Britney. Ou Madonna. Se não der tempo, pego no youtube. Assim que funciona. Vi no Youtube. Adorei. Arrepiou os cabelinhos do braço quando ela surgiu no palco. veneceous estava dizendo que o povo ama a superação. Pode ser. Eu acho que o povo ama a Britney. Junta Britney e superação, sai de baixo. Tá magra. Vestida de prateado. O cabelo ainda pode melhorar, E MUITO, mas não vamos querer pedir demais, né? Já foi feita a transformação. Ganhou 3 prêmios, fez 3 discursos idênticos. Ela nem se dava ao trabalho de inverter a ordem dos agradecimentos. Adoro. Saiu de lá com 3 bonequinhos de astronauta, que super me lembram aquele um do clipe de Ooops, I did it again. Super simbólico. E ainda teve Paris, ex best friends forever, aquela que ria com deboche vestida de oncinha no fiasco do ano passado, tendo de anunciar e entregar pra Britney o segundo prêmio, de melhor video pop. Playback? Não. Payback. Move, Bitch.

Confesso que a minha primeira reação é uma satisfaçãozinha, assim, encolhida, quase maldosa, quando eu penso que a garota vai ficar sem faxineira. Sadismo sempre fez parte da minha gama de características assim não muito dignas de orgulho. Mas eu nem ligo. Eu costumava ser criticada por ela e por um monte de gente quando me ligavam em um fim de semana e eu dizia que estava fazendo faxina. No início eu ria, depois ficava puta, depois ficava ressentida, depois passava. Acontece que eu sempre fui meio freak com limpeza. E sempre fui meio freak com a idéia de que eu sei fazer muita coisa melhor do que pessoas que eu pagaria pra fazer por mim. Unha, por exemplo. Eu vou ao salão e saio de lá com dedos sofridos e esmalte não tão legal assim. Dura dois, três, quatro dias. Sai tudo. Eu puxo pelinha antes, e me machuco toda. Porque manicure nenhuma nesse mundo de Disus faz unha melhor do que eu. Pode até fazer a sua, desaparecido leitor, pode até fazer a da garota, mas não faz a minha. A minha unha faço eu, a minha cutícula faço eu. Porque eu sei. Depilação, mesma coisa. Faxina, well, também. Acontece que tomar a faxina da minha casa nas minhas próprias mãos não foi uma decisão fácil. Eu não gosto de parar pra arrumar a casa, trocar a roupa de cama, colocar as toalhas pra lavar na máquina ou lavar os banheiros. Eu odeio. Mas até hoje, nunca pisou na minha casa uma faxineira tão legal quanto eu mesma. Tinha uma que veio algumas vezes, mas depois que ela resolveu mexer nos meus sapatos e dizer que a filha calçava o mesmo que eu, e se eu podia dar alguma coisa pra ela, fiquei bolada. Porque o armário não fazia parte da arrumação, e estava bem arrumado. Até por cores eu organizo as coisas. Teve outra que comeu todo o meu chocolate do armário, escondida na cozinha. Ela podia ter pedido, eu daria com o maior prazer. É difícil colocar alguém que você não conhece na sua casa. E eu sempre soube arrumar tudo muito bem. Uma vez por semana, basta, e a casa funciona tranquilamente por seis ou sete dias. Uma questão de organização de tarefas.

Então a garota sente que o chão saiu por debaixo dos pés dela. E provavelmente, antes ainda que eu acabe de escrever isso aqui, já ligou pra meia dúzia de contatos e anotou uns números de celular de cartão, das cleaning ladies todas da cidade grande. Mas eu digo que nem é tão traumático assim. Basta um aspirador de pó. Uma vassoura. Uns paninhos, desses de chão, outro, desses de tirar a poeira. Produtinhos com cheiro gostoso. A parte da roupa é mais complicada. Não vou mentir. Vai ter que rolar um desapego nessa hora. Porque calça jeans que vai pra máquina com freqüência, destrói rapidinho. Casaquinhos fofos fazem bolinhas. Eu dei pra ela um papa bolinhas uma vez, mas acho que ela não estava suficientemente amadurecida pra entender o presente e todo o significado dele. Era a Lene que usava o papa bolinhas. Talvez agora ela esteja pronta para receber este conhecimento.

Madame Ç não vai gastar seu latim com um Madame Ç sabe, Madame Ç explica. Madame Ç sabe, fato. Mas explicar é outra história. Madame T não tem em sua natureza essa coisa de arrumar a casa. Ela é prática. Ela acha o maior especialista no assunto e põe pra assumir a tarefa. Explicar seria bobagem. Ela nem ia usar os ensinamentos, after all.

Então, ficam os votos de que ela ache uma substituta para a Leneleide. Uma que pique as coisas na geladeira, passe o papa bolinhas na roupas, lave e passe. Seja de confiança, não toque nos sapatos dela. Não coma as guloseimas no armário da cozinha, não quebre as suas xícaras legais e não esconda a poeira embaixo do tapete. É importante entender como funciona a natureza de cada um. Se a tarefa se mostrar difícil, se Lene, ao contrário da minha crença de que ninguém é insubstituível, for realmente única e especial, ela vai tratar o braço estragado e vai voltar. Pergunta pra ela se lá no sindicato das cleaning ladies não tem ninguém de confiança. Deve ter. Uma espécie de backup para emergências. Uma filha, sobrinha, alguém recém chegada do norte ou nordeste, com um daqueles sotaques arretados, querendo fazer a vida no sul, em sumpolo.

Se nada disso funcionar, nada mesmo, ninguém aparecer, nenhuma viv’alma com coração bão e caráter forte, eu faço um post daqueles bem grandes, ensinando como as coisas funcionam. Palavra de Madame.

help wanted.

Minha gente. Meu povo. Meus companheiros. Vos digo que fodeo geral em verde amarelo. A pátria está ameaçada.
Eis que ontem à noite meu telefone vibra, vibra, vibra. Vibra e vibra mais. Contrariada atendo.
Era a Lene. Lene já foi citada nesse blog. Lene, a responsável pela manutenção da minha gaveta de calcinhas. Lene, a responsável pelo giro do meu guarda-roupas. Lene, a responsável pela tatuagem de ferro de passar roupa no carpete do meu quarto. Lene, a gerente de suprimentos de produtos de limpeza. Lene, a campeã sulamericana em corte de melancias. Lene, a gestora de posições de bonecos inanimados. Lene, medalha de bronze em Sidney nas artes com Durepox. Lene, inexplicável.
Era ela ao telefone.
Logo que atendi, presumi: f-o-d-e-o-g-e-r-a-l.
Lene, minha musa, vem enfrentando uma gravíssima tendinite no braço direito, fruto de muito esforço e empenho nas categorias supracitadas. Lene, que já havia largado várias diárias para dedicar-se à fisioterapia, veio por fim, declarar que o dotô mandou ela fazê fisioterapia tododia.
De segunda à sábado. Ahaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaam. Esse sábado eu não sei não, mas ela pode ter exagerado um pouquinho para que eu ficasse com pena dela. Como no dia em que ela tatuou o tapete. Ela disse também que cortou o dedo. Pra balancear a possível insatisfação da freguesa. Gênia.
Enfim, Lenileide precisará se afastar da competição da categoria Diária. Disse que chorou demais. Que vai ficar doida da cabeça sem trabalhar, que nem bijouteria ela poderá fazer.
Esse mês ela ainda vai lá. Vou tentar um golpe derradeiro. Não posso adiantar pra vocês, minguados leitores.

Je suis desolée. Je ne sais pas passar roupá.

Hoje eu sonhei que eu entrava na sala da diretoria. A sala da diretoria era numa sala antiga, com pé direito alto. Os diretores entrevistavam pessoas, cada um em sua mesa, para uma vaga de gerente de uma livraria em Paris. O salário era de sete mil reais e mais cinco de auxílio moradia.
Logo que eu entrei na sala, o presidente da empresa em que eu trabalho me perguntou: Paris?
Nesse momento todos os diretores me olharam com cara de “você por aqui?”.
Depois disso eu me vi perdida por Paris. Era algo como se eu tivesse decidido, feito a mala, e ido. Lá chegando, procurei um hotel. O que eu fiquei custava cinquenta euros, tinha água quente, mas era bem pulguento.
Logo depois a minha mãe apareceu. Ela dizia que meu pai não queria ficar tanto tempo por lá. Queriam viajar e era implícito que essa viagem se estenderia a mim. Eles não queriam ficar todo aquele tempo em Paris. Eu queria.
Aí eu acordei pra ir ao dentista.

patchouli azul

Eu nunca fui a preferida dela. Eu dizia até que ela não gostava de mim. Mas ela gostava sim, eu sempre soube que ela gostava.
Ela gostava muito de escrever e gostava muito dos livros espalhados pela casa. Gostava tanto que não gostava de me emprestar.
Ela dizia que gostava, que tudo que era meu era dela, mas era mentira. Ela não gostava de me emprestar os livros.
Eu pegava mesmo assim. E ela vinha e lavava de volta. Ela não sabia passar perfume. Exagerava no patchouli. Ela roubava fotos e eu fingia que não via.
Ela dizia que não acreditava em Deus, mas acreditava. Como eu.
Ela costurava pra mim em azul ou verde pra combinar com meus olhos. E eu queria tanto o rosa que ela sempre fazia pra Pat.
Antes de sair de casa ela trancou as portas. E fora de casa, não queria a chave longe da mão dela.
Fico com a chave, com os textos, com o azul e o verde. E com o cheiro de patchouli, que só hoje, eu entendi.

A porta da casa

Faz um tempo que eu aprendi a ter casa. A ter uma vida onde as xícaras se quebram e você sente como as mães sentem quando alguma coisa da casa se quebra. Aprendi a repor xícaras.
Aprendi a pagar contas, a tratar com a diarista, aprendi que os ralos precisam de proteção. Aprendi que baratas devem ser trucidadas sem medo, logo que avistadas.
Fiz análise duas vezes por semana, chorei.
Trabalhei mais do que devia, muitas horas por dia. Fiz amigos, um monte deles.
Aprendi a chegar em casa sozinha, a tomar meu banho, vestir um pijama de flanela xadrez. Aprendi que as vezes basta um sabonete de mel pra confortar o coração.

Aprendi que com o tempo tudo passa. E aprendi que pra ter casa, a gente tem que lembrar de trancar a porta.

Eu não escrevo, tu não escreves, ela não escreve. Nós não escrevemos. Vos não escreveis. Eles não escrevem.

Eu e a garota, Velma, Mary W., Isa.

Todas inertes.

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